LIVRO: CORPO DESFEITO – JARID ARRAES

Corpo desfeito é o primeiro romance de Jarid Arraes, escritora, cordelista e poeta nascida em Juazeiro do Norte, na região do Cariri. Este não é o primeiro contato que tenho com a escrita de Jarid, há alguns anos tive meu primeiro encantamento com a coletânea de contos Redemoinho em dia quente, vencedora do prêmio APCA e do prêmio Biblioteca Nacional, e mais recentemente com o livro de poesia Um buraco com meu nome, sendo todos eles lançados pela editora Alfaguara.

Amanda tem doze anos e acaba de perder a mãe em um acidente trágico e injusto. Sem conhecer o pai, toda sua esperança de conforto se volta para a avó, pessoa dura e intolerante, que já sofreu muito no passado com os abusos de seu marido agressivo e alcoolista.

Era o normal de minha vida. Contava com a repetição daquela reza, soberba em sua segurança, direcionada à mainha, a única capaz de me oferecer a proteção que uma menina de doze anos deseja, mesmo que eu ainda não soubesse distinguir como o abrigo e a caverna se confundem.

Através das memórias e do presente de Amanda, conhecemos histórias de três gerações diferentes de mulheres cuja vida não foi nem um pouco fácil.

A avó de Amanda sofria muito em seu relacionamento tóxico com seu marido, que a agredia fisicamente e emocionalmente. Apesar disso, ela mantinha essa relação e cuidava desse homem, pois talvez essa fosse a única forma que conhecia de tentar manter as coisas da forma com a qual a sociedade, e até mesmo a religião, lhe ensinara.

Sabemos bem que os mais antigos acreditam que o casamento é um contrato eterno com o divino que não pode ser quebrado de forma alguma. O preço desse contrato são relações construídas muitas vezes na base do “se render para conseguir sobreviver”. É um retrato muito triste, cheio de nuances e, infelizmente, ainda muito real.

A falecida mãe de Amanda teve que abandonar os estudos muito jovem devido à gravidez. Ela desistiu da escola e decidiu se dedicar a trabalhar duro em diversas funções para garantir o sustento e um futuro diferente e melhor para sua filha.

Ao não revelar detalhes sobre a paternidade de Amanda, ela acabou ficando mal vista pela própria família. Especialmente pelo seu pai, um traste intolerante de mentalidade extremamente machista. De certa forma, ela representa um rompimento de expectativas e tradições familiares arcaicas. É sabido que tudo que foge ao tradicional, mesmo que essa tradição seja casar-se com alguém que trata feito lixo e ter que manter esse relacionamento por conta da merda de um contrato divino, é considerado profano, grotesco, vergonhoso e indigno.

Objetos na cor vermelha foram alguns dos vários itens banidos pela avó de Amanda

Tendo essa linha em mente e dando continuidade a essa quebra, o exemplo/legado que a mãe de Amanda deixa para a garota é uma inspiração de evolução, de trabalho duro em prol da independência, de quebra de moldes antigos e construção de uma realidade maior e melhor.

É aí que entram os esforços da avó Marlene de fazer com que essa linha se mantenha intacta. Talvez ela o faça para manter em sua vida uma normalidade à qual está acostumada, ou como uma tentativa de proteção exacerbada guiada pelas consequências trágicas que ocorreram em sua vida. Talvez, em sua cabeça e fé, essa busca por normalidade seja uma espécie de punição do karma pelos familiares terem escolhido o caminho do pecado, ou simplesmente porque ela não é capaz de ver o mundo por prismas diferentes, justamente por ter sido uma pessoa cronicamente exposta a uma visão de túnel.

O artifício que Marlene encontra para cercear cada vez mais a neta é extremamente cruel e baixo. A avó se utiliza da adoração, respeito e saudade que Amanda sente da mãe para santificar a imagem da falecida, transformando-a em uma imagem e atribuindo-lhe identidade divina de santa. Ao santificar a imagem da filha, Marlene começa a apresentar regras expostas em sonhos ou revelações pela santa, propondo um manual de como a mãe de Amanda gostaria que ela se comportasse.

Assim, Amanda começa a perder suas roupas consideradas chamativas pela avó, todos os objetos de uma cor específica que não agradam ao divino, e até a porta do banheiro é arrancada da parede. A intimidade intimidade da garota também é desparafusada, exposta e tolhida. Tudo isso faz com que a sensação de abrigo que a avó deveria fornecer se confunde com a sensação de uma caverna, onde Amanda está aprisionada à mercê do monstro no escuro.

Em algum momento dos meus primeiros anos, fui convencida de que deveria encolher e passei a aceitar afeição como esmola.

Toda essa dor, cerceamento e sensação constante de perigo criados por Marlene, além da vergonha e do escárnio social que Amanda sofre devido às regras absurdas da avó, afastam cada vez mais a garota do futuro idealizado pela sua falecida mãe. Os únicos e bem-vindos momentos de alívio são aqueles nos quais Amanda, aos poucos, descobre seu primeiro amor. A relação de Amanda e Jéssica ajudam a garota a entender a realidade horrível que sua avó está construindo.

Ao perceber que as visões de sua avó, confundidas com as visões de uma santa fabricada, se afastam cada vez mais daquilo que sua mãe lhe dizia e mostrava, Amanda sente a necessidade de seguir os passos da mãe e quebrar essa linha de uma vez por todas. Além disso, ao desfrutar de tempo com Jéssica, longe de toda aquela atmosfera opressora de seu “lar”, ela percebe que algo não está certo e que precisa agir antes de se tornar o objeto de quebra.

Corpo Desfeito é mais uma prova da versatilidade e do talento de Jarid, que consegue transitar do cordel, passando pelo conto e a poesia, até chegar no romance com a mesma potência. Apesar de ser uma história bem pesada, a leitura consegue ser bem fluída, a atmosfera sufoca o leitor na medida que a avó vai sufocando a liberdade da neta, é impossível parar de ler, o leitor é quase como uma pessoa se afogando, tentando submergir para puxar ar de novo.

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