LIVRO: 23 MINUTOS – WALDSON SOUZA

23 Minutos é o novo livro do autor Waldson Souza, publicado este ano pela editora Harper Collins. Acompanho o trabalho do autor desde o lançamento de Oceanïc pela editora Dame Blanche, que também publicou a continuação Flumën. Desde então, sua escrita vem me surpreendendo a cada novo trabalho, deixo aqui a indicação do conto Eletricidade em suas veias, parte da antologia independente Vislumbres de um futuro amargo, Te vejo no próximo mundo e O homem que não transbordava.

Capa de 23 minutos: um jovem negro correndo de bicicleta em uma rua escura iluminada apenas por um poste de onde uma sombra parece espreitar o jovem.

Capa de “23 minutos” criada pelo designer Marcus Pallas

Na trama, Hugo, um jovem negro prestes a completar 18 anos, é baleado por um desconhecido. Ele morre, mas por apenas 23 minutos.

Todos os dias, no mesmo horário, Hugo morre nas mesmas circunstâncias da primeira vez, ele sente um disparo, seu sangue jorra, ele agoniza e recebe um segundo e fatal disparo. A situação, para além de assustadora e dolorosa, é desesperadora e ele precisa encontrar logo uma forma de entender o que está acontecendo, se possível sem alertar e preocupar sua família e amigos.

Hugo não tarda a descobrir que foi vítima de uma espécie de maldição cíclica, um feitiço do tempo, para o qual a única saída é passar a maldição adiante matando outra pessoa com o mesmo revólver com o qual foi morto.

“A Morte brincava comigo, rindo da minha cara. Ela me levava só para me devolver em seguida. Mostrando quem estava no controle.”

Durante a leitura, tentei me imaginar nessa situação, tendo que conviver com o fato de que em um horário específico do meu dia eu vou morrer, todos os dias, por 23 minutos e depois vou voltar da morte como se nada tivesse acontecido. Bem, não exatamente como se nada tivesse acontecido, pois ainda teria que lidar com a bagunça sanguinolenta intrínseca à uma morte por tiros.

Como se adaptar a uma situação dessas, como encaixar esse evento na sua rotina, como permanecer relativamente são em meio a tudo isso, eu teria coragem de passar a maldição adiante? Você teria?

Enquanto luta com esse infortúnio e tenta ajustar sua rotina para a nova e espantosa realidade, ele precisará lidar com a maratona que é o último ano do ensino médio, seus estudos para um vestibular que poderá garantir um futuro longe de Pedra Redonda e sua relação com seus melhores amigos Lucas e Nicole, que acaba ficando abalada por conta das mentiras que se vê obrigado a contar para manter sua condição em segredo.

Como se não bastasse tudo isso, Hugo também precisa entender sua relação complicada com sua sexualidade e o fato de estar se apaixonando por Guilherme, um colega de escola que mantem um relacionamento heterossexual.

“Quando a culpa está enraizada em seu interior, você se torna o próprio juiz e carrasco.”

Todos esses dramas comuns na vida de Hugo são costurados muito bem com o acontecimento extraordinário que tira a paz do personagem. Lucas e Nicole, acabam se tornando importantes parceiros na busca por uma forma, se é que ela é possível, de encerrar a maldição sem precisar machucar ninguém.

Guilherme tem a função de fornecer certo respiro, ao mesmo tempo que o faz encarar, entender e aceitar melhor seus sentimentos. O próprio Guilherme também precisa colocar suas ações e sentimentos em perspectiva e descobrir o que quer da vida, tendo em mente que no processo de descoberta ele já machucou Hugo, já se machucou e agora está machucando Ana.

Além deles, César, irmão mais velho de Hugo, também se torna um pilar muito importante na história na medida que Hugo se vê obrigado a envolver o irmão nos dilemas que está enfrentando.

Na imagem com fundo preto, ao lado do exemplar físico de "23 Minutos" uma uma mão segurando uma munição de revólver que está se desfazendo em referência a uma cena do livro.

Diferente de seus outros livros, que tinham um foco mais voltado à ficção científica, 23 Minutos, apesar de também beber do gênero, afinal estamos falando de um feitiço no tempo, tem sua trama mais voltada para o suspense.

Quem acompanha o blog sabe que eu amo histórias de suspense e o livro foi extremamente competente em me deixar tenso, querendo virar uma página após a outra para desvendar o mistério acerca da morte estranha do personagem, o mistério por trás dessa suposta maldição, os caminhos que o personagem precisa trilhar para se livrar disso, como ele conseguiria se livrar disso, se ele conseguiria mesmo se livrar disso e quais seriam as consequências de suas tentativas, afinal, desde o começo o autor deixa claro que na sua história as coisas não se resolvem magicamente, há sempre um motivo e há sempre uma consequência.

Preciso dizer que o livro tem sua dose gostosa de nostalgia para quem viveu a adolescência nos anos 2000, o que foi o meu caso, uma nostalgia muito gostosa e bem construída, referências que estão ali para somar com a história e não só para ter referências com o objetivo de gerar identificação, como vem acontecendo em diversos livros nacionais jovens adultos que parecem se valer mais de referências e menções à musicas pop do que a uma história em si.

Engraçado que, antes de ler 23 Minutos, eu havia acabado de finalizar uma leitura cujo personagem principal também se chamava Hugo e fiquei com o receio bobo de acabar confundindo os dois personagens na minha cabeça. Digo receio bobo justamente por se tratar de uma obra escrita pelo Waldson, que sabe muito bem criar e desenvolver personagens, cada um com sua personalidade, com seus conflitos e nuances, do personagem principal ao mais secundário.

Aqui isso pode ser exemplificado pela relação complicada que Lucas tem com o pai, que apesar de não ser o centro da história, acontece ali de fundo, mas toda vez que é mencionada me gerou sentimentos bem fortes, confesso que alguns deles não foram nada bonitos e aqui esbarro em mais uma característica da escrita do Waldson, provocar sentimentos e sensações com a sua escrita.

Um fato interessante, que com toda a certeza não foi uma referência do autor e sim uma experiência de leitura, acontece em um momento do livro onde buscando respostas os personagens se dão conta de que o melhor lugar para buscar respostas quando tudo parece nebuloso e perdido seria uma biblioteca. Recentemente, assisti ao filme Twisters e, durante uma das cenas de catástrofe, onde uma cidade inteira precisa buscar um abrigo imediatamente, um dos personagens solta a excelente ideia de levar todas as pessoas para o cinema.

Essas duas coisas aparentemente desconexas na verdade se conecta quando paramos para pensar que é exatamente isso, os livros, o cinema e a arte em geral se provaram e se provam excelentes fontes de resposta, abrigo e identificação em um mundo cada vez mais cheio de desinformação, hostilidade, frieza, preconceitos e violência.

Que bom que temos autores no nosso país produzindo livros como este, que trata de temas complexos como o racismo, a violência doméstica e a homofobia de forma direta e responsável. 

Como eu disse, 23 Minutos é um livro rápido de ler, que prende o leitor do início ao fim com seus mistérios, clima de suspense, construção de personagens, uma nostalgia gostosa pra quem foi adolescente nos anos 2000. A história é muito bem contada, desenvolvida e concluída. Eu não vou comentar muito sobre a conclusão, pois ela precisa ser sentida sem avisos prévios. Mesmo depois do ponto final da história, nos agradecimentos, o autor ainda encontra uma forma de sobressaltar o leitor ao explicitar um segundo significado para o título do livro. Imperdível!

Quantos cafés 23 Minutos merece?

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