LIVRO: A HISTÓRIA QUE NUNCA VIVEMOS – LUCAS ROCHA

Imagine que o seu autor favorito está prestes a receber um prêmio pelo seu mais recente romance, a continuação de seu consagrado livro de estreia, mas novamente é confrontado na mídia por uma autora independente que reclama ambos os trabalhos para si, alegando tratar-se do roubo da história da sua vida.

Agora, imagine que esse autor em questão é seu avô, homem que você admira e tem como referência. Você tomaria como verdade a defesa dele, que alega perseguição e loucura, ou daria o benefício da dúvida e tentaria descobrir de alguma forma qual dos lados está dizendo a verdade?

“Quando um homem usa a desculpa de que a mulher está louca e perseguindo ele, é muito provável que ela esteja falando a verdade”.

Os primos Mateus e Sofia, netos do renomado escritor brasileiro José Guimarães, estão resignados a uma tediosa temporada na mansão do avô no interior de São Paulo para celebrar a indicação do novo livro dele ao maior prêmio de literatura brasileira. No entanto, os dois veem suas expectativas mudarem quando uma jornalista aparece na mansão e questiona José Guimarães sobre as acusações de que ele, na verdade, copiou obras de outra pessoa para escrever os romances entre mulheres que lhe deu fama e dinheiro.

Intrigados, Mateus e Sofia decidem investigar sobre o passado da família e alguns questionamentos inevitavelmente começam a martelar em suas cabeças.

José Guimarães em sua vida particular não se parece em nada com a pessoa que demonstra ser em seus livros. Como um homem que escreveu uma história com uma visão tão sensível e cuidadosa sobre a história de amor entre duas mulheres poderia se mostrar uma figura tão machista e homofóbica frente a saída do armário de seu próprio neto? São nas pequenas sutilezas que Mateus passa a desconfiar que Ana Cristina, a misteriosa mulher que levantou acusações contra seu avô, possa estar falando a verdade, coisa que sua prima Sofia já tem como certo.

Diante disso, surgem dois dilemas interligados: como descobrir a verdade e, caso descubram, terão a coragem de expor a suposta farsa do avô gerando consequências não só para ele como para toda a família? As respostas ficam claras quando encontram um diário no cofre do avô com registros que apresentam toda a verdade não só sobre os livros, mas também questões com o potencial de mudar ou até mesmo destruir a relação familiar de todos os membros da família Guimarães.

“A história que nunca vivemos” foi uma leitura que me surpreendeu e encantou por diversos fatores, sendo o maior deles o jeito que o autor encontrou para abordar um plot que é comum em livros jovens de temática homoafetiva de uma forma nova e inventiva.

Apesar de Mateus ser o narrador da história e estar em uma posição de sofrer homofobia por parte do avô, ele possui o apoio incondicional da maior parte da família, ou seja, apesar de ser extremamente desconfortável, ele não se encontra em uma situação de risco, mas sim em uma situação de vantagem de certa forma, a vantagem de poder expor seu algoz e reparar, na medida do possível, os estragos que ele fez no passado e toda a reverberação dessa homofobia e machismo em sua família e também no recorte de sociedade no qual ele está inserido.

Eu gostei particularmente da luta aqui, que por muitas vezes inevitavelmente partem do “eu” nos livros dessa temática, o fato de partir do outro teve um impacto maior do que apenas construir um ambiente digno e saudável para um indivíduo e sim reparar injustiças e construir / revelar exemplos baseados em sentimentos, atitudes e amores reais ao invés de uma falsa construção alicerçada em ambição financeira, social ou moral, Lucas aqui dá um tapa estalado com a mão aberta naqueles que lucram com pink-money enquanto fazem de tudo nos bastidores para invisibilizar e até mesmo destruir o pouco de dignidade e direitos que a comunidade LGBTQIA+ lutou, continua lutando e ainda lutará muito para conquistar.

Esse é o segundo livro que eu leio do Lucas Rocha, o primeiro foi o também ótimo “Rumores da Cidade”, e posso dizer que me enche de alegria ver autores como ele escrevendo histórias com temática homoafetiva para jovens de uma forma tão criativa, inspiradora e acima de tudo, sem limitar a capacidade dos seus leitores se apoiando apenas em uma fórmula que dá certo.

Quantos cafés “A história que nunca vivemos” merece?

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